A Mansarda na Arquitetura: Origem, presença em Portugal e valor estético
- Ana Carolina Santos

- há 14 horas
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A mansarda é um elemento arquitetónico facilmente identificável nas fachadas de muitos edifícios antigos, sobretudo na Baixa de Lisboa, mas raramente se compreende a sua origem e o percurso que a trouxe até à paisagem urbana portuguesa. A seguir explica-se o que é uma mansarda, de onde surgiu, como chegou a Portugal e de que forma é hoje entendida como elemento de valor arquitetónico.

O que é uma Mansarda
A mansarda é um tipo de cobertura cujo telhado é composto por quatro planos inclinados, dividido em duas partes: as águas-mestras ou principais, que formam a parte superior do telhado, e as águas-dobradas, os planos inferiores, mais inclinados, quase verticais. Esta configuração permite aproveitar o espaço sob o telhado como piso habitável, ao contrário de um sótão convencional, através da inserção de janelas nas águas-dobradas que iluminam e ventilam o compartimento.
Por extensão, o termo "mansarda" passou também a designar o próprio compartimento criado sob este tipo de cobertura. É frequente confundir-se mansarda com água-furtada: a água-furtada corresponde ao espaço sob o telhado, mas só é considerada mansarda quando esse espaço possui janelas que o tornam habitável e iluminado.
A mansarda distingue-se de um simples sótão por transformar um espaço perdido sob o telhado num compartimento habitável, com luz natural e pé-direito aproveitável.
A origem do nome e do modelo
O termo mansarda tem origem no nome do arquiteto parisiense François Mansart (1598-1666), figura central da arquitetura clássica francesa. Ao contrário do que popularmente se pensa, Mansart não inventou este tipo de cobertura, mas foi quem a popularizou, inspirando-se em soluções italianas anteriores caracterizadas por telhados íngremes e de dupla inclinação, próprias da arquitetura renascentista. O seu sobrinho-neto, Jules Hardouin-Mansart, deu ainda mais notoriedade ao modelo ao utilizá-lo na construção do Palácio de Versalhes.
Como chegou a Portugal
Em Portugal, a mansarda surge no léxico arquitetónico no século XVIII, através de modelos franceses trazidos por Carlos Mardel, engenheiro militar de origem húngara que se estabeleceu em Lisboa em 1733 e que, tendo estado em França antes de chegar a Portugal, conhecia profundamente as obras dos tratadistas franceses. Mardel adaptou o modelo à realidade construtiva portuguesa, executando-o com telha cerâmica de canudo, em vez dos soletos de ardósia usados nos exemplares franceses.
Os exemplos mais emblemáticos desta primeira fase incluem as mansardas de perfil côncavo da Casa Nobre de Lázaro Leitão Aranha, na Rua da Junqueira, e as que rematam os edifícios da Praça do Rossio, na reconstrução pombalina da Baixa de Lisboa. No entanto, este modelo não se fixou de forma duradoura na cultura arquitetónica da cidade e o seu uso desapareceu progressivamente a partir do final do século XVIII.
A mansarda regressou apenas nas décadas finais do século XIX, desta vez inspirada nas soluções aplicadas por Georges-Eugène Haussmann durante a renovação de Paris entre 1853 e 1870. Esta nova geração de mansardas na Baixa Pombalina surgiu, sobretudo, como resposta ao crescimento demográfico acelerado de Lisboa: entre 1878 e 1900, a população da capital aumentou de 242 mil para 356 mil habitantes, gerando forte pressão para maximizar o aproveitamento dos edifícios existentes. Os proprietários passaram a solicitar o acrescento de mansardas sobre os últimos andares dos seus edifícios, sobretudo a partir da década de 1880, recorrendo a materiais industriais então disponíveis, como a chapa ondulada galvanizada e a telha Marselha.
Onde se encontra e como é valorizada
Na Baixa Pombalina de Lisboa, é possível identificar diversos edifícios com mansardas acrescentadas entre as décadas de 1880 e as primeiras décadas do século XX, nomeadamente em ruas como a Rua Augusta, a Rua da Prata, a Rua da Conceição, a Rua Áurea e a Praça do Município, entre outras localizações. Estas intervenções, promovidas maioritariamente por construtores civis, distinguem-se dos exemplares eruditos do século XVIII pela materialidade e pela morfologia mais reta dos planos de cobertura, em contraste com o perfil côncavo das mansardas mardelianas.
Do ponto de vista do valor arquitetónico, a mansarda desempenha hoje um papel de destaque na leitura histórica dos edifícios onde está presente:
Funciona como testemunho material das sucessivas fases de transformação e ampliação dos edifícios ao longo do tempo.
Reflete a evolução das técnicas construtivas e dos materiais disponíveis em cada época, desde a telha cerâmica tradicional até à chapa metálica industrial.
Contribui para a definição do perfil e da silhueta dos edifícios na paisagem urbana, sobretudo em conjuntos como a Baixa Pombalina.
Permite o aproveitamento de área útil adicional em edifícios existentes, uma vantagem prática que já motivava os proprietários lisboetas no século XIX.
Boas práticas a considerar
Para quem pretende recuperar ou integrar uma mansarda num projeto de reabilitação, há aspetos que merecem atenção redobrada:
A escolha do material de revestimento deve ter em conta não apenas a estética, mas também o desempenho térmico e acústico, uma vez que soluções em chapa metálica e em telha cerâmica apresentam comportamentos distintos.
Em edifícios com valor patrimonial, a intervenção numa mansarda existente deve procurar preservar a morfologia e os materiais originais sempre que possível, evitando descaracterizar um elemento que faz parte da leitura histórica do imóvel.
A criação de novas mansardas em edifícios existentes deve ser cuidadosamente estudada, considerando o impacte na fachada, na volumetria e na relação com o restante conjunto urbano onde o edifício se insere.
Alerta importante: Qualquer intervenção que envolva alteração ou aumento de cobertura, incluindo a criação de mansardas, é uma operação urbanística que pode estar sujeita a controlo prévio junto da câmara municipal, pelo que a consulta a um arquiteto e a confirmação dos requisitos aplicáveis ao caso concreto são passos indispensáveis antes de qualquer decisão.
Para refletir
A mansarda ilustra bem como a arquitetura absorve influências externas e as adapta à realidade local, combinando técnica, materiais disponíveis e necessidades práticas de cada época. Em Lisboa, o seu percurso, da adaptação erudita de Carlos Mardel no século XVIII ao aproveitamento pragmático dos construtores civis do século XIX, revela uma história de resposta criativa aos desafios de crescimento urbano e de escassez de espaço habitável. Reconhecer o valor deste elemento ajuda a olhar com outros olhos para os telhados que hoje coroam tantos edifícios das cidades portuguesas.



