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Como as infraestruturas determinam o valor real da propriedade

  • Foto do escritor: Ana Carolina Santos
    Ana Carolina Santos
  • 24 de dez. de 2025
  • 6 min de leitura

O valor de um imóvel não depende apenas da casa em si — as estruturas que a servem e envolvem têm influência profunda e mensuravelmente comprovada no seu preço no mercado. Sejam estradas, transportes públicos, sistemas de água, saneamento ou proximidade a equipamentos essenciais, as infraestruturas definem não apenas a qualidade de vida de quem habita, mas também o potencial de investimento e valorização a longo prazo.


Vista aérea da área urbana de Odivelas
Vista aérea da área urbana de Odivelas

O que são Infraestruturas Urbanas e porque importam?


Infraestruturas urbanas são os sistemas técnicos fundamentais que suportam o funcionamento de uma cidade ou localidade. Incluem transportes públicos, redes de água e esgotos, energia elétrica, telecomunicações, iluminação pública, arruamentos e equipamentos comunitários como escolas, centros de saúde e espaços verdes. Estas não são meramente complementos ao imóvel — são fatores que determinam a sua utilidade, segurança, acessibilidade e potencial futuro. Um edifício de qualidade arquitectónica excelente, mas situado numa localidade sem transportes públicos, rede de abastecimento deficiente ou infraestruturas inadequadas, terá valor consideravelmente menor do que uma propriedade menos sofisticada, mas bem servida.



Transportes Públicos: O fator mais impactante


O efeito mensurável da proximidade

Estudos académicos realizados em Portugal e internacionalmente estabelecem conclusões claras: a proximidade a transportes públicos tem impacto direto no preço dos imóveis.

Dados práticos:

  • Imóveis a menos de 500 metros de uma estação de metro valorizam entre 20 a 25% comparativamente a propriedades similares em localidades sem esta proximidade

  • Proximidade a terminais de autocarros valoriza em média 15 a 20%

  • Proximidade a corredor de autocarro (biarticulado) valoriza em média 10 a 15%

Um estudo da Universidade do Porto analisou mais de 1.000 transações residenciais e confirmou que a proximidade a estações de metro tem impacto positivo e estatisticamente significativo em todos os cenários testados.


Porque os transportes públicos aumentam tanto o valor?

A resposta é prática: reduzem tempo de deslocação, diminuem custos com combustível e manutenção de veículo próprio, e aumentam oportunidades de emprego acessíveis. Para famílias, significa menos gastos e mais tempo disponível. Para investidores, significa maior procura e maior estabilidade de rendimento em caso de arrendamento.


O efeito "Transit-Oriented Development"

Zonas planeadas em torno de estações de transporte — designadas como "Transit-Oriented Development" — apresentam ganhos de capital superiores à média urbana. A razão é simples: a infraestrutura de transporte funciona como catalisador para atração de população, comércio e serviços, criando zonas dinâmicas com maior oferta de emprego.



Fase 1: Redes de Abastecimento e Saneamento


A importância da água e esgotos

A disponibilidade de rede pública de água e esgotos é, formalmente, um requisito obrigatório em Portugal para que um imóvel seja considerado apto para habitação. Imóveis sem estas infraestruturas têm:

  • Valor de mercado significativamente reduzido

  • Dificuldades severas em obtenção de crédito bancário

  • Impossibilidade legal de utilização em certos fins

  • Custos operacionais elevados (fossas, poços)

A existência destas redes não é opcional — é determinante para a própria viabilidade do imóvel.


Qualidade da rede

Para além da existência, a qualidade e adequação da rede importa. Imóveis em zonas onde a rede é antiga, frequentemente sujeita a ruturas ou sobrecarga, têm perspectivas de valorização inferiores a zonas com redes modernas e dimensionadas adequadamente.



Fase 2: Energia Elétrica e Telecomunicações


Eletricidade

A acessibilidade a rede elétrica confiável é fundamental. Imóveis em zonas com frequentes falhas de energia têm:

  • Menor atratividade para arrendamento residencial

  • Dificuldades em instalação de sistemas de climatização e aquecimento

  • Custos adicionais com sistemas de backup (geradores)

  • Menor competitividade em mercado de habitação


Telecomunicações e Internet

Nas últimas décadas, a conectividade de internet transformou-se de luxo em necessidade. Imóveis com acesso a fibra ótica ou tecnologias equivalentes têm:

  • Maior atração para trabalho remoto

  • Maior valor no mercado de arrendamento

  • Maior capacidade de adaptação a mudanças tecnológicas futuras

A ausência de conectividade de qualidade afeta negativamente a competitividade do imóvel, especialmente em zonas periféricas que procuram atrair população jovem e profissional.



Fase 3: Arruamentos e Mobilidade


Qualidade das Infraestruturas Rodoviárias

Arruamentos bem pavimentados, com iluminação pública adequada, aumentam significativamente a segurança e o conforto:

  • Pavimentação deficiente: Aumenta custos de manutenção, reduz segurança em viagens noturnas, afeta o valor do imóvel

  • Iluminação pública: Fundamental para a segurança, reduz criminalidade percebida, aumenta conforto de circulação

  • Sinalização e tráfego: Ordem e segurança atraem população, reduzem acidentes

A manutenção das infraestruturas rodoviárias reflete indiretamente a qualidade de gestão municipal e afeta a perceção de qualidade de vida da zona.


Estacionamento

Em zonas urbanas, a disponibilidade de estacionamento é factor crítico. Imóveis com:

  • Garagem integrada ou lugar de estacionamento: valorizam significativamente

  • Zona com défice de estacionamento: sofrem desvalorização, menor procura


"As infraestruturas bem planeadas e mantidas são o fundamento invisível mas determinante do valor imobiliário."


Fase 4: Equipamentos de Interesse Colectivo


Educação: Escolas e Universidades

Proximidade a escolas de qualidade é uma prioridade declarada de 70% das famílias com filhos. Imóveis próximos a:

  • Estabelecimentos de ensino reputados valorizam 10 a 15%

  • Universidades (nas cidades) criam procura sustentada por habitação estudantil

  • Falta de oferta educativa reduz atratividade para famílias


Saúde: Centros de Saúde e Hospitais

Proximidade a equipamentos de saúde é particularmente relevante para população sénior, população com necessidades especiais, e famílias com crianças pequenas. Imóveis próximos a centros de saúde ou hospitais têm:

  • Maior atratividade demográfica diversificada

  • Menor ansiedade em situações de emergência

  • Maior procura no segmento de arrendamento para idosos


Comércio e Serviços

Proximidade a comércio variado, farmácias, bancos e serviços diversos afeta significativamente a qualidade de vida e o valor. Imóveis em zonas "desertas" comercialmente têm:

  • Menor procura para habitação

  • Menor potencial de arrendamento

  • Menor dinamismo urbano percebido



Fase 5: Espaços Verdes e Qualidade Ambiental


Parques e Zonas de Lazer

A presença de espaços verdes públicos acessíveis valoriza o imóvel e a zona:

  • Aumenta a qualidade de vida percebida

  • Oferece espaço de convívio e recreação

  • Reduz problemas psicossociais em população urbana

  • Melhora a qualidade ambiental

Cidades com planeamento verde estruturado — Lisboa com os seus parques, Porto com as suas margens do Douro — registam maior estabilidade e crescimento de valores imobiliários.


Sustentabilidade Ambiental

Zonas com boa gestão ambiental, sem poluição industrial, com ar de qualidade, apresentam:

  • Maior atratividade para a população de poder aquisitivo mais elevado

  • Menor pressão sobre a saúde, reduzindo custos médicos

  • Perspectivas de valorização mais sólidas



Impacto Financeiro mensurável: Números concretos


Estudos de caso em Portugal

  • Grande Lisboa: Zonas bem servidas de transportes públicos (como proximidade ao Metro) registam valorização média anual de 5 a 8%, enquanto zonas periféricas sem transporte público registam 1 a 3%.

  • Porto: Expansão do Metro do Porto criou "corredores de valorização" onde imóveis previamente desvalorizados registaram incrementos de 20 a 30% em 3 a 5 anos.

  • Braga e Guarda: Regiões do interior com investimento em infraestruturas (rodoviárias, tecnológicas) registam valorização anual acima de 15%, significativamente superior a regiões com infraestruturas deficientes.


Factores de valorização: Hierarquia

Segundo estudos de avaliação imobiliária, a influência relativa dos factores é:

  • Proximidade a centros urbanos e transportes: 30% do valor

  • Qualidade das infraestruturas: 25% do valor

  • Potencial económico local: 20% do valor

  • Qualidade de vida (educação, saúde, segurança): 15% do valor

  • Regulamentação urbanística: 10% do valor


Vista aérea da área urbana de Almada
Vista aérea da área urbana de Almada

Situações de Risco: Quando as Infraestruturas prejudicam o valor


Proximidade a Infraestruturas "Negativas"

Certos tipos de infraestruturas reduzem o valor do imóvel:

  • Proximidade a estradas muito movimentadas: Ruído, poluição, risco de acidentes

  • Proximidade a indústria pesada: Poluição, ruído, odores

  • Proximidade a depósitos de resíduos ou aterros: Poluição ambiental, risco de contaminação

  • Proximidade a linhas de alta tensão: Preocupações com radiação (embora discutidas)

Imóveis nestas situações sofrem desvalorização significativa, frequentemente de 15 a 40% comparativamente a propriedades similares sem estas desvantagens.


Servidões e Restrições de Utilidade Pública

Existem também restrições legais que afectam valor:

  • Zonas adjacentes a águas públicas: Limitações de construção e transformação do solo

  • Zonas de protecção patrimonial: Restrições a obras e alterações

  • Zonas de risco sísmico ou de cheia: Limitações e custos adicionais



Conselhos práticos para avaliar Infraestruturas


Quando procurar um imóvel, verifique:

Transportes Públicos:

  • Distância a estações de metro, comboio ou autocarro

  • Frequência de serviços e horários de funcionamento

  • Confiabilidade histórica (atrasos, ruturas)

Redes técnicas:

  • Confirmação de rede pública de água e esgotos

  • Qualidade da rede elétrica (frequência de falhas)

  • Disponibilidade de internet de qualidade (fibra ótica ideal)

Equipamentos próximos:

  • Proximidade a escolas (máximo 15 minutos a pé)

  • Centro de saúde ou hospital (máximo 20 minutos)

  • Comércio variado acessível

Qualidade urbana:

  • Condição do arruamento e iluminação pública

  • Presença de espaços verdes

  • Sinalização e segurança percebida

Factores negativos:

  • Proximidade a indústria ou tráfego intenso

  • Histórico de problemas ambientais ou de saúde pública

  • Área em declínio económico ou social


Ao adquirir, pesquise o Plano de Investimentos Municipal

Munícipios publicam planos plurianuais de investimento que revelam futuras melhorias em infraestruturas. Imóveis em zonas onde se preveem novos transportes públicos ou melhorias estruturais têm elevado potencial de valorização nos próximos 3 a 5 anos.



Para refletir


As infraestruturas são frequentemente negligenciadas na decisão de compra ou venda de um imóvel, mas a evidência é clara: são determinantes do valor real, do potencial de valorização e da qualidade de vida a longo prazo. Um imóvel isolado, sem transportes públicos, sem abastecimento adequado ou situado numa zona economicamente estagnada, não será nunca um bom investimento, independentemente das qualidades da construção. Inversamente, propriedades situadas em zonas com infraestruturas sólidas, bem mantidas, com perspectivas de melhoria e crescimento económico tendem a registar valorização consistente e maior liquidez de mercado.

A escolha de onde comprar um imóvel não deve ser baseada apenas na casa — deve ser uma decisão informada sobre a zona, as infraestruturas existentes e o planeamento futuro. É este contexto que determina, afinal, quanto vale realmente a propriedade e quanto continuará a valer nos próximos anos.

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