Sistema de Certificação Energética e qualidade do ar interior: o que está em causa
- Ana Carolina Santos

- há 3 dias
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O Sistema Nacional de Certificação Energética e da Qualidade do Ar Interior nos Edifícios corresponde hoje ao Sistema de Certificação Energética dos Edifícios (SCE), regulado pelo Decreto‑Lei n.º 101‑D/2020, de 7 de dezembro, na redação dada, entre outros, pelo Decreto‑Lei n.º 11/2025. Este regime substituiu o enquadramento inicial do Decreto‑Lei n.º 118/2013, mantendo a lógica central: avaliar o desempenho energético dos edifícios, garantir requisitos mínimos e emitir o certificado energético.
O que é o SCE e para que serve
O SCE é o sistema através do qual se avalia o desempenho energético de edifícios (novos e existentes) e se certifica a qualidade do ar interior em determinados edifícios de comércio e serviços. A entidade gestora é a ADENE – Agência para a Energia.
Principais funções:
Emissão do certificado energético (CE), que atribui ao imóvel uma classe de eficiência (de A+ a F) e descreve o seu desempenho energético.
Identificação de medidas de melhoria com estimativa de investimento e de poupança, orientando proprietários e promotores para intervenções eficazes.
Verificação do cumprimento dos requisitos mínimos de desempenho energético e, em comércio e serviços, da qualidade do ar interior (QAI), de acordo com o Decreto‑Lei n.º 101‑D/2020 e respetivas portarias.
O SCE é, ao mesmo tempo, um “balanço energético” do edifício e uma lista de oportunidades para o tornar mais confortável e eficiente.
Quando é utilizado e quando se aplica
O SCE aplica‑se a edifícios e frações de habitação, comércio e serviços, nos termos do Decreto‑Lei n.º 101‑D/2020, com as especificidades definidas nesse diploma e na legislação complementar.
Situações em que o certificado energético é, em regra, exigido:
Licenciamento de obras de edificação (novas construções ou grandes reabilitações):
Pré‑certificado energético na fase de projeto, para demonstrar que o edifício previsto cumpre os requisitos.
Autorização de utilização de edifícios:
1.º certificado energético, com base no edifício construído, verificando a conformidade com o projeto e eventuais alterações.
Transações imobiliárias:
Venda de edifícios ou frações.
Contratos de arrendamento de longa duração, com as exceções previstas no regime.
Edifícios de comércio e serviços sujeitos a QAI:
Avaliação e registo periódico da qualidade do ar interior, nos termos do Decreto‑Lei n.º 101‑D/2020 e da Portaria n.º 138‑G/2021.
Há exceções específicas (por exemplo, certos edifícios industriais, agrícolas ou de reduzida utilização), definidas no próprio Decreto‑Lei n.º 101‑D/2020. Sempre que se planeia comprar, arrendar, licenciar ou reabilitar um edifício, é prudente verificar se a operação está abrangida pelas obrigações do SCE.
Quem são os profissionais que lidam com o SCE
O sistema envolve vários intervenientes, com responsabilidades distintas, identificados pela ADENE:
ADENE – Agência para a Energia
Entidade gestora do SCE, responsável pela plataforma, registo de certificados, definição de procedimentos e controlo de qualidade.
Peritos Qualificados (PQ)
Técnicos habilitados, ao abrigo do Decreto‑Lei n.º 102/2021 e da Portaria n.º 28/2022, a emitir pré‑certificados e certificados SCE.
Avaliam o edifício, calculam o desempenho energético, identificam medidas de melhoria e submetem o processo na plataforma SCE.
Técnicos de Instalação e Manutenção (TIM)
Profissionais que atuam sobre os sistemas técnicos (climatização, AVAC, águas quentes, etc.), assegurando que a instalação e manutenção não comprometem o desempenho energético e a QAI.
Municípios, notários, advogados, mediadores imobiliários
Municípios: verificam a existência de pré‑certificado/certificado em licenciamento e utilização.
Notários e advogados: confirmam a existência de certificado válido nas escrituras de compra e venda.
Mediadores imobiliários: obrigados a indicar a classe energética nos anúncios, quando aplicável.
Para o proprietário, o contacto direto é, sobretudo, com o perito qualificado, que traduz o enquadramento técnico e legal em propostas concretas para o imóvel.
Ensinamentos para proprietários, promotores e investidores
O SCE não é apenas uma exigência formal; é também uma ferramenta de decisão. Há vários ensinamentos práticos a retirar:
O certificado energético como “raio‑X” do imóvel
O certificado descreve:
Envolvente (paredes, coberturas, vãos, orientação).
Sistemas técnicos (climatização, águas quentes sanitárias, ventilação, eventualmente produção fotovoltaica).
Consumos anuais estimados de energia.
Medidas de melhoria, com ordem de grandeza de investimento e de poupança.
Para quem compra ou investe, isto ajuda a:
Estimar custos de exploração (aquecimento, arrefecimento, AQS).
Identificar intervenções prioritárias (janelas, isolamento, sistemas).
Planeamento de reabilitações e nova construção
Para promotores e proprietários que vão intervir em edifícios:
Trabalhar desde início a arquitetura e as especialidades em articulação com o SCE permite atingir classes energéticas mais altas com soluções equilibradas.
O pré‑certificado na fase de projeto é um momento útil para afinar opções (envolvente, sistemas) antes de a obra ser lançada.
Valorização do ativo e competitividade no mercado
Edifícios com melhor classe energética tendem a:
Ser mais confortáveis (temperatura, ruído, qualidade do ar interior).
Ter custos energéticos mais baixos, o que é relevante para quem habita ou explora comercialmente.
Ser mais atrativos para compradores e arrendatários, que começam a olhar para a classificação energética como um fator de escolha.
Gestão de risco e conformidade
Ignorar o SCE é assumir riscos:
Risco jurídico (falta de certificado em venda ou arrendamento quando obrigatório).
Risco económico (edifícios obsoletos do ponto de vista energético, com maior probabilidade de exigirem investimentos forçados no futuro).
Risco reputacional (empreendimentos novos com classes baixas são, cada vez mais, mal percecionados no mercado).
Tabela síntese:
Perspetiva | Como o SCE acrescenta valor |
Proprietário particular | Informação sobre conforto e consumo, apoio a obras futuras. |
Promotor imobiliário | Ferramenta de projeto e argumento de venda (classe energética). |
Investidor/gestor de portefólio | Base para estratégias de reabilitação energética e ESG. |
Ler um certificado energético com atenção é uma forma rápida de perceber o “potencial escondido” de um edifício.
Para considerar
O Sistema de Certificação Energética dos Edifícios, que sucedeu ao sistema nacional de certificação energética e da qualidade do ar interior, é hoje uma peça central na forma como projetamos, reabilitamos, compramos e utilizamos edifícios em Portugal. Para proprietários, promotores e investidores, compreender a lógica do SCE e trabalhar com peritos qualificados desde as fases iniciais é uma forma de transformar uma obrigação legal numa vantagem competitiva: edifícios mais eficientes, confortáveis, valorizados e preparados para um quadro regulatório cada vez mais exigente.
Nota: Este conteúdo foi elaborado com base na legislação portuguesa em vigor em março de 2026; dada a evolução constante do quadro normativo e as especificidades de cada edifício e operação, recomenda‑se sempre a consulta da legislação atualizada, bem como a articulação com a Câmara Municipal competente, com a ADENE e com técnicos habilitados.



