Em que situações deve contratar um Arquiteto Paisagista
- Ana Carolina Santos

- 15 de jan.
- 7 min de leitura
Os espaços exteriores tornaram-se elementos decisivos na escolha e valorização de imóveis em Portugal. Desde a pandemia, a procura por casas com jardins, terraços ou varandas aumentou mais de 30% em zonas urbanas como Lisboa e Cascais, evidenciando uma mudança profunda na forma como valorizamos a relação entre o interior e o exterior das nossas habitações.
Perante um jardim por construir, um terraço sem identidade ou uma área de lazer que não cumpre o seu potencial, muitos proprietários questionam-se sobre o papel do arquiteto paisagista e quando justifica recorrer a este profissional. A seguir, esclarecemos as situações concretas em que a intervenção deste técnico especializado se revela fundamental, os benefícios que acrescenta e o enquadramento legal que, em determinados casos, torna a sua contratação obrigatória.

O que é e o que faz o Arquiteto Paisagista
O arquiteto paisagista é o profissional com formação académica específica — licenciatura ou licenciatura e mestrado em Arquitetura Paisagista — habilitado para conceber, elaborar e assinar projetos de espaços exteriores. A sua atuação abrange desde pequenos jardins privados até grandes intervenções de planeamento urbano e regional, passando pela preservação do meio ambiente e pelo planeamento de sistemas de lazer.
Ao contrário do que frequentemente se assume, a arquitetura paisagista vai muito além da seleção de plantas ou do cultivo de flores. Trata-se de uma disciplina que integra conhecimentos técnicos, científicos e artísticos para criar espaços exteriores funcionais, esteticamente equilibrados e sustentáveis.
Principais competências do arquiteto paisagista:
Análise das características físicas, biofísicas e climáticas do local
Definição de programas e objetivos em articulação com as necessidades do cliente
Desenho do espaço segundo princípios de composição: equilíbrio, escala, volumes, harmonia
Articulação do projeto com estruturas existentes (edifícios, piscinas, estacionamentos)
Seleção adequada de espécies vegetais em função do clima, solo e disponibilidade de água
Garantia de conformidade legal e obtenção de licenciamentos necessários
Elaboração de planos de rega, drenagem, iluminação e outros sistemas técnicos
Acompanhamento da execução da obra
Desenvolvimento de planos de gestão e manutenção a longo prazo
A diferença entre o Arquiteto Paisagista e o Jardineiro
Esta é uma das confusões mais comuns. Embora ambas as profissões se complementem, as suas valências são distintas.
O arquiteto paisagista é responsável pelo projeto: concebe, planeia e coordena toda a intervenção no espaço exterior. Cria os layouts, define os materiais, elabora os planos de plantação, rega e drenagem, e acompanha tecnicamente a execução.
O jardineiro, por sua vez, é o profissional que executa o projeto concebido pelo arquiteto paisagista. Dedica-se à construção física do jardim, à realização de pavimentos, ao fornecimento e aplicação de terra vegetal, às plantações, à instalação de sistemas de rega e à manutenção dos espaços verdes. Possui conhecimentos sobre poda, controlo de pragas e doenças, e garante que o jardim se mantém saudável e esteticamente agradável ao longo das estações.
Em síntese: o arquiteto paisagista projeta; o jardineiro executa e mantém.
Situações práticas para contratar um Arquiteto Paisagista
Mesmo nas situações em que a lei não impõe a obrigatoriedade, existem múltiplos cenários em que a contratação de um arquiteto paisagista representa um investimento com retorno comprovado.
Construção de um jardim novo
Se está a construir uma moradia ou a remodelar uma propriedade e pretende criar um jardim de raiz, o arquiteto paisagista é o profissional indicado para garantir que o espaço será funcional, esteticamente harmonioso e tecnicamente bem resolvido. Este profissional ajuda a organizar ideias, a tomar decisões informadas e a apresentar soluções que vão ao encontro dos seus objetivos, garantindo a sua satisfação com o espaço e com a vivência nele.
Um projeto bem concebido evita erros que "saem caros" em termos de dinheiro, tempo e resultado final.
Terraços e varandas de apartamentos
Os terraços e varandas tornaram-se extensões fundamentais dos apartamentos, especialmente em contexto urbano. Em média, uma casa com jardim pode valer até 20% mais do que uma semelhante sem esse espaço; no caso de apartamentos, uma boa varanda ou terraço pode aumentar em 10 a 15% o valor de mercado.
O arquiteto paisagista projeta soluções específicas para estes espaços limitados, considerando fatores como insolação, ação dos ventos, visibilidade, facilidade de manutenção e escolha adequada de espécies vegetais. Transforma terraços e varandas em verdadeiros refúgios de bem-estar, otimizando cada metro quadrado disponível.
Áreas de lazer com piscina
A envolvência de uma piscina não se resume ao tipo de pavimento. Um projeto de paisagismo bem concebido define o layout do jardim, a eleição de flores e árvores, as zonas de sombreamento, os materiais, a iluminação e a articulação com áreas de apoio. Elementos como composições de rochas, pérgulas, caramanchões, zonas de duche exterior e recantos privados para descanso transformam a área da piscina numa verdadeira zona de lazer, valorizada e vivida.
Projetos complexos ou de grande escala
Quando o projeto envolve várias áreas, requer um design detalhado ou integra múltiplas funcionalidades — áreas de estar, zonas de cultivo, caminhos, sistemas de drenagem —, o arquiteto paisagista é indispensável. A sua capacidade de coordenar diferentes elementos e especialidades, garantindo coerência e funcionalidade, faz toda a diferença no resultado final.
Requalificação de espaços exteriores existentes
Nem sempre se trata de criar de raiz. Muitas vezes, os proprietários pretendem requalificar jardins abandonados, otimizar áreas mal aproveitadas ou modernizar espaços exteriores desatualizados. O arquiteto paisagista analisa o existente, identifica potencialidades e debilidades, e propõe intervenções que maximizam o valor e a funcionalidade do espaço.
Vantagens de contratar um Arquiteto Paisagista
A contratação de um arquiteto paisagista traduz-se em múltiplas vantagens, tanto a curto como a longo prazo.
Design personalizado e funcional: Cada projeto é único e adaptado às necessidades, gostos e estilo de vida do cliente. O arquiteto paisagista cria espaços que refletem a identidade de quem os habita, garantindo simultaneamente funcionalidade e conforto.
Poupança de custos a longo prazo: Projetos bem concebidos resultam em poupanças nos custos de construção e, sobretudo, de manutenção. A escolha adequada de espécies vegetais, a correta implementação de sistemas de rega e drenagem, e a previsão de planos de gestão a longo prazo evitam gastos desnecessários e problemas futuros.
Conformidade legal e segurança: O arquiteto paisagista assegura que o projeto cumpre a legislação aplicável e obtém todas as autorizações e licenciamentos necessários. Esta conformidade evita embargos, coimas e a necessidade de refazer trabalhos.
Sustentabilidade e eficiência: A integração de princípios de sustentabilidade — uso de vegetação autóctone, sistemas de rega eficientes, aproveitamento de águas pluviais, promoção da biodiversidade — não só beneficia o ambiente como reduz custos operacionais.
Valorização do imóvel: Espaços exteriores bem projetados valorizam significativamente os imóveis. Estudos indicam que o paisagismo pode aumentar o valor de venda de um imóvel em até 30%, tornando-se um investimento com retorno comprovado.

Fases do projeto de Arquitetura Paisagista
A elaboração de um projeto de arquitetura paisagista segue fases bem definidas, que garantem rigor técnico e adequação aos objetivos do cliente.
Estudo Prévio: Nesta fase inicial, o arquiteto paisagista visita o local, analisa as suas características e debilidades, e discute com o cliente os objetivos e o orçamento disponível. Resulta daqui um primeiro desenho do jardim — o Plano Geral —, um conjunto de soluções para cada zona e uma estimativa orçamental genérica. Para pequenos espaços, esta fase pode ser suficiente para organizar os trabalhos a executar.
Projeto Base ou Licenciamento: Com base nas opções aprovadas no estudo prévio, desenvolve-se o projeto completo, incluindo todas as peças necessárias à compreensão do que se pretende construir: Plano Geral, Plano de Plantação, Plano de Pavimentos e inertes, Plano de Rega, entre outros. Esta é a fase que permite a apresentação do projeto às autoridades para licenciamento, quando aplicável.
Projeto de Execução: É a fase mais detalhada, em que se desenvolvem todas as peças desenhadas e escritas necessárias à execução física da obra. Inclui mapa de quantidades, estimativa orçamental detalhada, plano de pormenores construtivos e especificações técnicas (caderno de encargos). Este documento orienta a empresa construtora e garante que a obra será executada conforme o projetado.
Acompanhamento de Obra: Durante a execução, o arquiteto paisagista realiza visitas ao local, esclarece dúvidas, verifica a conformidade com o projeto e resolve eventuais imprevistos. Este acompanhamento é fundamental para garantir a qualidade do resultado final.
Sustentabilidade e vegetação autóctone
Um dos princípios fundamentais da arquitetura paisagista contemporânea é a aposta na sustentabilidade, nomeadamente através do uso de vegetação autóctone — espécies características de cada região.
As plantas autóctones apresentam vantagens significativas: permitem maiores taxas de sucesso nas plantações, diminuem os custos de manutenção e melhoram a qualidade do ambiente. Estas espécies, por estarem adaptadas ao clima e ao solo locais, requerem menos cuidados, menos rega e dispensam frequentemente o uso de produtos químicos para combater pragas e doenças.
Adicionalmente, a vegetação autóctone atrai e beneficia a fauna local — aves, borboletas, abelhas —, promovendo a biodiversidade e o equilíbrio ecológico. Em Portugal, espécies como o carvalho, o salgueiro, o espinheiro-alvar e o alecrim são exemplos de plantas que, além de embelezarem o espaço, contribuem para a conservação da água e do solo, a amenização do clima e a prevenção de fogos florestais.
O arquiteto paisagista, com o seu conhecimento especializado sobre as séries de vegetação e as espécies com potencial de utilização em cada contexto, garante que as escolhas são tecnicamente adequadas e ecologicamente responsáveis.
Para considerar
Os espaços exteriores deixaram de ser meros complementos da habitação para se afirmarem como elementos centrais na escolha, valorização e vivência dos imóveis em Portugal. A procura crescente por jardins, terraços e varandas reflete uma mudança cultural profunda, na qual o contacto com a natureza e a qualidade dos espaços ao ar livre assumem prioridade.
Contratar um arquiteto paisagista é uma decisão estratégica sempre que se pretende criar, requalificar ou otimizar um espaço exterior. Este profissional alia competências técnicas, conhecimento científico e sensibilidade estética para desenvolver projetos que respondem às necessidades dos clientes, cumprem a legislação aplicável e promovem a sustentabilidade.
Seja por obrigação legal — quando existe logradouro privativo não pavimentado —, seja por opção fundamentada, a intervenção do arquiteto paisagista traduz-se em projetos mais funcionais, esteticamente equilibrados e economicamente vantajosos a longo prazo. O investimento inicial compensa-se na valorização do imóvel, na redução de custos de manutenção e, acima de tudo, na criação de espaços que verdadeiramente melhoram a qualidade de vida.



