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Faixas impermeáveis junto às fachadas em logradouros: o detalhe obrigatório que protege a base da sua casa

  • Foto do escritor: Ana Carolina Santos
    Ana Carolina Santos
  • 24 de fev.
  • 6 min de leitura

Como arquiteta a trabalhar sobretudo em habitação em Portugal, vejo recorrentemente o mesmo problema: água a acumular-se junto às fachadas, pavimentos encostados à parede sem qualquer cuidado de impermeabilização e, alguns anos depois, manchas, bolores e degradação prematura dos edifícios. A faixa impermeável junto à fachada, no logradouro, é precisamente o detalhe que evita grande parte destes cenários – e, em muitos casos, não é apenas recomendável: é uma obrigação regulamentar.

A zona junto à fachada é uma linha de defesa técnica e legal: se falhar, toda a envolvente do edifício fica mais vulnerável à água e em desconformidade com o RGEU.

Pavimento no logradouro como faixa impermeável à volta das fachadas
Pavimento no logradouro como faixa impermeável à volta das fachadas

O que é uma faixa impermeável junto à fachada


De forma simples, a faixa impermeável é uma “zona de proteção” contínua ao longo da fachada, na área exterior, desenhada e construída para impedir que a água se infiltre junto à base das paredes.​

Habitualmente, traduz-se em:

  • Um pavimento com acabamento resistente à água (betão, pedra, cerâmica adequada ao exterior, etc.).​

  • Camadas de impermeabilização por baixo desse pavimento (membranas, argamassas especiais, etc.).​

  • Uma solução que garante a pendente correta, afastando a água da parede.​

Em termos regulamentares, o RGEU (Regulamento Geral das Edificações Urbanas) exige, no artigo 76.º, que as paredes em contacto com o terreno – nomeadamente caves e pisos enterrados – disponham de dispositivos que evitem infiltrações e humidades, o que, na prática, implica a existência de soluções impermeáveis e de drenagem junto às fachadas enterradas ou semi‑enterradas. Esta obrigação legal complementa as exigências de qualidade construtiva previstas no RJUE (Regime Jurídico da Urbanização e da Edificação), que impõe condições de segurança, salubridade e durabilidade das construções.




Do ponto de vista normativo e de projeto, a exigência decorre de:

  • RGEUArt. 76.º: obriga a adotar meios que impeçam infiltrações nas paredes em contacto com o terreno, traduzindo-se, na prática, em sistemas de impermeabilização e drenagem junto às fachadas enterradas.​

  • RJUE – obriga a garantir segurança, salubridade e qualidade da construção, condicionando o licenciamento à adoção de soluções que evitem humidades e degradação prematura.​

  • Regulamentos municipais de urbanização e edificação, que muitas vezes detalham critérios de cotas, drenagem e arranjos exteriores.​

  • Regulamentos de loteamentos e planos de pormenor, onde surgem regras específicas para pendentes, drenagem e afastamento da água das fachadas.​

  • Exigências técnicas de projeto, enquanto boas práticas de construção e de durabilidade.

Em projeto e licenciamento, estas faixas (ou detalhes construtivos equivalentes) são frequentemente exigidas porque:

  • Garantem afastamento da água da fachada

    • Evitam acumulação de água da chuva junto às paredes exteriores.​

    • Facilitam o escoamento superficial, direcionando a água para sumidouros, ralos lineares ou zonas de drenagem.​

  • Contribuem para a salubridade das habitações

    • Reduzem o risco de humidades ascendentes nas paredes, protegendo zonas habitáveis.​

    • Protegem áreas sensíveis como caves, pisos enterrados e patamares de entrada, em linha com o artigo 76.º do RGEU.​

  • Aumentam a durabilidade do edifício

    • Menos ciclos de humedecimento–secagem na base das paredes.​

    • Menor risco de degradação de rebocos, revestimentos e sistemas ETICS pelo exterior.​

  • Facilitam o cumprimento dos regulamentos municipais

    • Muitos regulamentos camarários remetem para critérios de drenagem, arranjos exteriores e qualidade das construções, operacionalizados em projeto através deste tipo de solução.​

Na prática, a faixa impermeável é a forma mais clara de cumprir a obrigação do RGEU de proteger paredes enterradas contra humidades, articulando-se com o RJUE e com os regulamentos municipais.

Que problemas concretos estas faixas evitam


Do ponto de vista prático, e falando da experiência em obra e reabilitação, estas faixas evitam problemas caros e difíceis de resolver mais tarde.​


Humidades em paredes e pavimentos interiores

Sem uma faixa impermeável bem concebida, é frequente ocorrer:

  • Humidade ascendente nas paredes, sobretudo em pisos térreos.​

  • Manchas, salitre, descolagem de pinturas e rebocos.​

  • Em casos mais severos, danos em rodapés, pavimentos interiores e mobiliário.​

Exemplo típico: moradia com jardim “encostado” à fachada, sem impermeabilização nem barreira capilar, em que, ao fim de poucos anos, surgem manchas escuras e salitre no interior do piso térreo.


Infiltrações em caves e pisos enterrados

Quando o logradouro está ao nível ou acima da cota de pisos enterrados, a ausência de um sistema de impermeabilização e drenagem bem definido junto à fachada é crítica.​ Consequências comuns:

  • Infiltrações nas paredes de caves, garagens e arrumos.​

  • Necessidade de intervenções posteriores pelo interior, mais invasivas, caras e, muitas vezes, menos eficazes do que uma boa solução exterior.​

Aqui, o artigo 76.º do RGEU é particularmente relevante: obriga a que paredes enterradas sejam protegidas contra a humidade do terreno, o que implica soluções de impermeabilização e drenagem, frequentemente integradas com a faixa impermeável exterior.​


Degradação precoce dos revestimentos exteriores

Mesmo em edifícios recentes, a ausência de proteção eficaz junto à base da fachada pode traduzir-se em:

  • Fissuração e destacamento de rebocos.​

  • Danos em sistemas ETICS (capoto) devido à água que “entra pela base”.​

  • Manchas persistentes e colónias de fungos.​


Problemas de segurança e conforto no uso diário

Para além da questão construtiva, estas faixas:

  • Reduzem a formação de zonas lamacentas ou escorregadias junto às entradas.​

  • Facilitam a circulação a pé junto à casa, inclusive para manutenção (limpezas, inspeções, pequenas reparações).​


Parede com patologias por não ter faixa impermeável do lado exterior
Parede com patologias por não ter faixa impermeável do lado exterior

Como é que, na prática, estas faixas são pensadas em projeto


Do ponto de vista da conceção arquitectónica e técnica, a faixa impermeável é desenhada como parte do sistema de envolvente do edifício e dos arranjos exteriores.


Largura da faixa

  • Definida em projeto, considerando o tipo de fachada, cotas, necessidade de circulação e solução de drenagem.

  • Pode assumir dimensões distintas consoante as zonas (entradas, laterais estreitas, pátios, etc.), sempre em coerência com:

    • Regulamento municipal aplicável.​

    • Regulamentos de loteamento e planos de pormenor.​


Camadas construtivas (boa prática)

  • Suporte estável (betão, base compactada adequada).​

  • Camada(s) de impermeabilização compatíveis com o sistema.​

  • Eventual camada de proteção mecânica.​

  • Acabamento final antideslizante, resistente ao exterior.​


Pendentes e drenagem

  • Pendentes desenhadas para afastar a água da fachada.​

  • Integração com:

    • Sumidouros e caixas de visita.​

    • Redes de drenagem pluvial.​

    • Zonas de infiltração planeadas (quando admitidas pelo regulamento municipal).


Articulação com planos municipais e planos de pormenor

  • Compatibilização das cotas do logradouro com as definidas em plano e com as infraestruturas previstas (arruamentos, passeios, espaços exteriores colectivos).​

  • Verificação de eventuais regras específicas de arranjos exteriores, drenagem e afastamentos.


Exemplo prático (moradia unifamiliar)

Numa moradia unifamiliar com logradouro:

  • Desenha-se uma faixa contínua junto às fachadas, com pendente a afastar a água do edifício.​

  • Integram-se zonas de circulação (acesso à porta, percurso lateral) e zonas mais técnicas (junto a caves, portas de garagem) com reforço de impermeabilização.​

  • As restantes áreas do logradouro (jardim, zonas permeáveis) começam para lá dessa faixa, assegurando que a terra ou relvados não “encostam diretamente” à parede exterior.​

Investir numa boa solução de impermeabilização junto à fachada é, muitas vezes, o que separa uma casa saudável de uma casa com humidades crónicas – e o que marca a diferença entre cumprir ou não o RGEU.

Em poucas palavras


A faixa impermeável junto às fachadas, em logradouros, é um detalhe discreto, mas decisivo para evitar humidades, infiltrações e degradação precoce das habitações. Em Portugal, a sua adoção resulta:​

  • Da obrigação do RGEU (artigo 76.º) de proteger paredes enterradas contra humidades e infiltrações.​

  • Da conjugação entre regras urbanísticas (aplicadas via regulamentos municipais e planos), exigências de qualidade da construção no RJUE e boas práticas de projeto.


A experiência em obra mostra que corrigir problemas de humidade e infiltrações, anos depois de construído o edifício, é quase sempre mais caro e menos eficaz do que planear bem as soluções exteriores desde o início. A faixa impermeável junto à fachada é uma dessas soluções estruturantes: protege a base das paredes, melhora o desempenho global do edifício e contribui para a valorização do imóvel a médio e longo prazo.​

Em qualquer intervenção – nova construção ou reabilitação – é fundamental que a definição destas faixas seja articulada entre o projeto de arquitetura, o projeto de especialidades e o contexto regulamentar municipal, assegurando simultaneamente o cumprimento do RGEU, do RJUE e dos planos em vigor. A análise caso a caso, com base em projeto, em regulamento municipal aplicável e em visita ao local, é essencial.


Nota: Este conteúdo foi elaborado com base na legislação portuguesa em vigor em fevereiro de 2026. Dada a evolução constante do quadro normativo e as especificidades de cada município, recomenda-se sempre a consulta junto da Câmara Municipal competente e o acompanhamento por técnicos habilitados.

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