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Como acelerar processos camarários: Evitar atrasos desnecessários

  • Foto do escritor: Ana Carolina Santos
    Ana Carolina Santos
  • 31 de dez. de 2025
  • 6 min de leitura

Os atrasos nos processos de licenciamento camarário são uma das maiores frustrações para investidores imobiliários em Portugal. Aquilo que deveria durar alguns meses pode facilmente esticar-se por um ou dois anos, imobilizando capital e aumentando custos de operação. A boa notícia é que muitos destes atrasos são evitáveis. Compreender as causas comuns e preparar a documentação de forma rigorosa reduz significativamente o tempo de aprovação. Este post aborda as estratégias práticas para acelerar processos camarários e evitar as armadilhas mais comuns.


Análise de um processo camarário no Departamento de Urbanismo numa Autarquia
Análise de um processo camarário no Departamento de Urbanismo numa Autarquia

Os prazos legais em Portugal


Desde janeiro de 2024, o Simplex Urbanístico (Decreto-Lei 10/2024) estabeleceu prazos máximos claros para decisão sobre licenciamentos:

  • Obras até 300 m²: 120 dias úteis

  • Obras de 300 a 2200 m²: 150 dias úteis

  • Obras superiores a 2200 m² e loteamentos: 200 dias corridos

Estes prazos contam a partir da data de submissão do pedido. Se a Câmara Municipal não decidir dentro deste período, o projeto é considerado automaticamente aprovado (deferimento tácito), sem necessidade de reclamação. Esta mudança procurou eliminar o problema histórico de suspensões indefinidas de processos.

Contudo, isto não significa que todos os processos corram em 120-150 dias. Os prazos máximos são frequentemente atingidos quando a documentação inicial é deficiente ou quando surgem questões urbanísticas complexas.


Um processo bem preparado e completo consegue deliberação em 60-90 dias. Um processo incompleto pode facilmente prolongar-se por 200+ dias.


As principais causas de atrasos


Documentação incompleta ou de qualidade deficiente

A razão mais comum de atrasos é a apresentação de processos incompletos. O RJUE exige elementos muito específicos. Se faltarem documentos, a Câmara Municipal notifica o requerente para corrigir, suspendendo-se os prazos do procedimento.

Os elementos mais frequentemente omitidos ou deficientes incluem:

  • Projeto de arquitetura fragmentado: plantas, alçados ou cortes incompletos; materiais não especificados; uso dos compartimentos não identificado

  • Memoriais descritivos insuficientes: descrições genéricas em vez de análise detalhada da integração urbana

  • Termos de responsabilidade incorretos: assinaturas ausentes, falta de comprovativo de seguros profissionais

  • Documentação de legitimidade inadequada: certidões desatualizadas do registo predial ou poderes de representação não comprovados

  • Projetos de especialidades incompletos: falta de coerência entre estrutura, águas e eletricidade

Estes erros parecem pequenos, mas determinam suspensões de semanas ou meses enquanto o requerente se move para corrigir.


Falta de Estudos Técnicos específicos

Projetos de maior complexidade frequentemente exigem estudos complementares que não foram previstos:

  • Estudo de impacto de tráfego ou viário

  • Avaliação de impacto acústico

  • Análise de acessibilidade (Decreto-Lei 163/2006)

  • Caracterização ambiental ou geotécnica

  • Estudos de integração urbana para edifícios em contextos sensíveis

Se estes estudos não forem entregues na submissão inicial, a Câmara pede-os, atrasando o processo.


Consultas a Entidades Externas

Muitos municípios requerem pareceres de entidades como:

Se estas entidades não foram consultadas previamente, adicionam tempo. Contactá-las antes da submissão ao município acelera significativamente.


Questões Urbanísticas controversas

Quando um projeto envolve aspectos urbanísticos não convencionais ou que desafiem práticas tradicionais do município, a análise prolonga-se. A Câmara pode solicitar estudos adicionais, reuniões com técnicos ou mesmo discussão pública (obrigatória em certos casos).


Discussão Pública obrigatória

Para operações de loteamento em áreas não abrangidas por plano de pormenor, o RJUE obriga a discussão pública. Isto acrescenta 23 dias ao processo (8 dias de anúncio + 15 dias de período de discussão). Se surgirem objeções relevantes da comunidade, pode ser necessário reformular o projeto.



Estratégias para evitar atrasos


1. Usar a Informação Prévia

Antes de investir tempo e recursos em projeto completo, requeira uma "informação prévia" à Câmara Municipal. Este procedimento dura até 30 dias e oferece parecer vinculativo sobre a viabilidade geral.

A informação prévia:

  • Define precisamente os requisitos para aprovação

  • Valida conformidade com planos territoriais

  • Identifica estudos técnicos necessários

  • Oferece validade de 2 anos sem necessidade de renovação

Saltar esta etapa por considerar um passo extra é frequentemente falso. Uma informação prévia bem aproveitada poupa redesenhos custosos.


2. Documentação completa e de qualidade desde o primeiro dia

Submeter documentação incompleta com esperança de corrigir depois é uma estratégia perdedora. Toda a documentação exigida deve acompanhar o pedido inicial.

Checklist essencial:

  • Projeto de arquitetura completo (plantas, alçados, cortes, materiais, usos)

  • Memoriais descritivos detalhados com justificação de opções técnicas

  • Projetos de especialidades coerentes (estrutura, água, eletricidade, gás, SCIE)

  • Termos de responsabilidade assinados por coordenador, diretor de obra e fiscalização

  • Comprovação de seguros profissionais

  • Documentação de legitimidade atual

  • Estudos técnicos previstos (acústico, tráfego, ambiental, acessibilidade)

  • Declaração de conformidade com informação prévia (se aplicável)

  • Assinaturas digitais qualificadas em formato correto

Qualidade importa mais que quantidade. Projetos tecnicamente coerentes e memoriais bem fundamentados atravessam a análise técnica com menos objeções.


3. Antecipar consultas a Entidades Externas

Não aguarde que a Câmara peça. Contacte preventivamente:

  • Empresas municipalizadas de água, saneamento, gás (para validar capacidade de ligação e aprovação de projetos)

  • ADENE (para certificação energética preliminar)

  • APA (se projeto envolva áreas ambientais sensíveis)

  • Autoridades de transporte público (se impacto em mobilidade)

Obter aprovações ou comentários prévios evita ciclos de pedidos posteriores.


4. Responder rapidamente a pedidos de complementos

A lei permite que a Câmara peça informações ou documentos adicionais uma única vez durante o procedimento. Tem 10 dias para responder. Se não responder, os prazos do procedimento suspendem-se.

Designar um responsável para monitorar solicitações e garantir resposta rápida é crítico. Muitos atrasos resultam simplesmente de demoras em responder.


5. Acompanhamento ativo do processo

Não submeta o processo e desapareça. Designe alguém para seguir semanalmente:

  • Verificar se a documentação foi recebida e validada

  • Contactar a Câmara se houver dúvidas

  • Agendar reuniões técnicas se necessário

  • Monitorar aproximação de prazos (120/150/200 dias)

Um acompanhamento proativo permite identificar problemas cedo e resolvê-los antes de transformarem em atrasos significativos.


6. Considerar Comunicação Prévia em alternativa

Para certos projetos (construção, ampliação, alteração em zonas abrangidas por plano de pormenor), existe a opção de "comunicação prévia" em vez de licença formal. Este procedimento é mais ágil:

  • Saneamento liminar em 15 dias

  • Pode iniciar obras imediatamente após aprovação e pagamento de taxas

Se o seu projeto se qualifica para comunicação prévia, esta via pode reduzir tempo total significativamente.


7. Conformidade digital rigorosa

Todos os elementos devem ser entregues em formato eletrónico com assinatura digital qualificada, estruturados em pastas conforme instruções municipais. Erros técnicos (formato incorreto, assinatura inválida, estrutura de pastas desorganizada) podem resultar em rejeição liminar.

Verificar os requisitos digitais específicos do município antes de submissão. Parecem detalhes triviais, mas afetam elegibilidade técnica.



Tabela resumida de prazos

Etapa

Prazo legal

Notas

Informação Prévia

30 dias

Parecer vinculativo, validade 2 anos

Saneamento Liminar (verificação instrução)

15 dias

Antes de apreciação formal

Deliberação sobre Arquitetura

30 dias

Sob RJUE

Decisão final (≤300 m²)

120 dias úteis

Com deferimento tácito se não decidir

Decisão final (300-2200 m²)

150 dias úteis

Com deferimento tácito

Decisão final (>2200 m² / loteamento)

200 dias corridos

Com deferimento tácito

Discussão Pública (se obrigatória)

23 dias adicionais

8 dias anúncio + 15 dias discussão

Resposta a pedidos de complementos

10 dias

Máximo 1 pedido por procedimento


Para refletir


Os atrasos nos processos camarários não são uma fatalidade. São, em grande medida, resultado de documentação incompleta, falta de antecipação de requisitos e ausência de acompanhamento.

Investidores que compreendem a legislação (RJUE, Simplex 2024, Portaria 71-A/2024), que se preparam meticulosamente e que acompanham ativamente os seus processos conseguem decisões em prazos razoáveis—frequentemente bem dentro dos máximos legais.

O custo de uma preparação rigorosa (alguns dias adicionais em fase inicial, reuniões técnicas preventivas) é uma fração do custo de atrasos de meses. Este é um investimento que sempre retorna.

Para projetos complexos ou em contextos regulatórios desafiantes, contar com orientação de profissionais (arquitetos, engenheiros, consultores urbanísticos) familiarizados com procedimentos e especificidades municipais torna-se não apenas aconselhável mas essencial. O conhecimento técnico e regulatório evita erros custosos e acelera significativamente processos.

Se está a ponderar um projeto imobiliário em Portugal, o tempo investido em compreender e antecipar requisitos administrativos não é tempo perdido—é tempo que poupa depois.


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