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Aproveitamento hidroagrícola: O que pode construir numa área beneficiada por regadio público

Foto do escritor: Ana Carolina Santos
Ana Carolina Santos
há 23 horas
3 min de leitura

Num prédio abrangido por um aproveitamento hidroagrícola, a lei proíbe as construções, atividades e utilizações não agrícolas, com exceção das admitidas como complementares da atividade agrícola nos regulamentos da obra. A seguir, ficam o que é esta área, as entidades que decidem, o que é permitido e as consequências de construir sem autorização.


Equipamento hidroagrícola
Equipamento hidroagrícola

O que é um aproveitamento hidroagrícola


O Decreto-Lei n.º 269/82, de 10 de julho, na redação do Decreto-Lei n.º 86/2002, de 6 de abril, é o regime jurídico das obras de aproveitamento hidroagrícola. O Diário da República indica ambos como em vigor. São consideradas obras de fomento hidroagrícola as que aproveitam águas do domínio público para rega, drenagem, enxugo e defesa de terrenos agrícolas, bem como a adaptação ao regadio das terras beneficiadas (artigo 1.º, n.º 1).

As obras classificam-se em quatro grupos, segundo o seu interesse (artigo 6.º):

Grupo

Tipo de obra

I

Interesse nacional, com transformação profunda da exploração agrária de uma vasta região

II

Interesse regional

III

Interesse local com elevado impacte coletivo

IV

Outras obras coletivas de interesse local

Com a aprovação do projeto de execução, fica fixado o perímetro hidroagrícola (artigo 20.º, n.º 2). Nas obras dos grupos I, II e III, a sujeição do prédio a este regime é inscrita na matriz e no registo predial (artigo 94.º).


Num prédio beneficiado por regadio público, a regra é a proibição de construir para fins não agrícolas.


Lei: O que está proibido e o que é admitido


O artigo 95.º, n.º 1 do regime proíbe todas e quaisquer construções, atividades ou utilizações não agrícolas de prédios ou parcelas de prédios das áreas beneficiadas, exceto as que, nos termos dos regulamentos provisório e definitivo da obra, forem admitidas como complementares da atividade agrícola. São nulos os atos administrativos que licenciem ou autorizem obras ou atividades em violação desta regra (artigo 95.º, n.º 2). O Estado e as demais pessoas coletivas públicas respondem pelos prejuízos dos particulares de boa-fé afetados por essa nulidade (artigo 95.º, n.º 3).

O que é admitido varia de obra para obra, porque depende do regulamento de cada aproveitamento. A título de exemplo, o Regulamento Definitivo do Aproveitamento Hidroagrícola do Divor (Aviso n.º 2916/2026/2) admite construções complementares da atividade agrícola apenas se cumprirem, cumulativamente, quatro condições:

  • Não terem alternativa viável fora da área beneficiada;

  • Inserirem-se em prédios integrados em exploração agrícola comprovadamente ativa;

  • Serem justificadas em função da atividade agrícola desenvolvida;

  • Respeitarem a integridade das infraestruturas e a viabilidade técnica e económica do aproveitamento.

Este exemplo aplica-se apenas a esse aproveitamento. O regulamento do seu aproveitamento pode ser diferente.



Quem regula e decide

Entidade

Papel

Emite parecer vinculativo sobre construções e utilizações em prédios beneficiados dos aproveitamentos sob a sua tutela, para efeitos de comunicação prévia ou licenciamento municipal

Pode emitir o parecer, consoante a classificação do aproveitamento

Câmara Municipal

Licencia ou recebe a comunicação prévia da obra

Entidade gestora do aproveitamento

Autoriza as obras previstas nos regulamentos

O diploma refere o IHERA e as direções regionais de agricultura, designações anteriores à orgânica atual. Segundo a DGADR, as áreas beneficiadas integram a Reserva Agrícola Nacional por integração específica, pelo que o parecer da entidade regional da RAN também pode ser exigido.


Exemplo prático: Um proprietário tem um prédio rústico dentro de um perímetro de rega e quer construir uma moradia. A construção para habitação é uma utilização não agrícola. Sem previsão no regulamento da obra, é proibida e a licença que fosse concedida seria nula.



Consequências de construir sem autorização


O regime prevê as seguintes consequências:

  • Cessação imediata: As entidades competentes devem ordenar a cessação imediata das ações em violação do diploma (artigo 96.º).

  • Embargo e reposição: Depois de ouvidos os interessados, é determinada a abstenção das ações e a reposição da situação anterior à infração, num prazo fixado (artigo 97.º, n.º 1).

  • Contraordenações: Constitui contraordenação a execução de obras não previstas nos regulamentos da obra ou, estando previstas, sem autorização da entidade gestora (artigo 98.º, n.º 1, alínea a)), bem como o não acatamento da ordem de embargo e reposição (alínea b)).

  • Sanções acessórias: A gravidade da infração pode justificar sanções acessórias, entre elas a interdição do exercício da atividade por um período máximo de dois anos (artigo 99.º).

Os montantes das coimas seguem o regime geral das contraordenações (artigo 98.º, n.º 5), pelo que não os indico.



Para refletir


Num prédio beneficiado por regadio público, a edificação não agrícola é a exceção e depende do regulamento da obra. Confirmar o enquadramento antes de comprar ou projetar evita a nulidade da licença, o embargo e a reposição do terreno.


Nota: Este conteúdo foi elaborado com base na legislação portuguesa em vigor em outubro de 2026, dada a evolução constante do quadro normativo e as especificidades de cada município, recomenda-se sempre a consulta junto da Câmara Municipal competente e o acompanhamento por técnicos habilitados.

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