As mudanças legislativas em Licenciamento: O que evolui em 2024 e além
- Ana Carolina Santos

- 1 de jan.
- 5 min de leitura
A legislação urbanística em Portugal sofreu uma reforma significativa com o Decreto-Lei 10/2024 (Simplex Urbanístico), aprovado em janeiro de 2024 e em vigor desde março do mesmo ano. Esta reforma eliminou procedimentos redundantes, estendeu prazos com segurança e introduziu o deferimento tácito—um mecanismo que aprova automaticamente projetos se a Câmara Municipal não decidir no prazo. Para proprietários, investidores e promotores, compreender estas mudanças é essencial.

O contexto da reforma
Portugal enfrentava um problema estrutural: processos de licenciamento longos, burocráticos e incertos. Proprietários iniciavam obras sem saber quando seriam aprovadas. As Câmaras Municipais acumulavam processos. Custos de contexto inflacionavam projetos. A reforma Simplex Urbanístico atacou isto com 26 medidas de simplificação.
O objetivo não era apenas agilizar—era criar certeza regulatória e reduzir custos administrativos que tornavam a habitação mais cara.
Mudança 1: Eliminação do Alvará de Licença de Construção
O que mudou: Antes, a licença de construção era formalizada em "alvará"—documento oficial. Depois, a aprovação é confirmada por simples recibo de pagamento de taxas.
Porque importa: É essencialmente simbólico, mas elimina um documento burocrático desnecessário. O processo torna-se mais direto. A propriedade fica juridicamente aprovada sem esperar por alvará físico.
Impacto prático: Mínimo, mas simplifica trâmites finais.
Mudança 2: Eliminação da Autorização de Utilização
Esta é a mudança mais substancial.
O que mudou: Antes, após conclusão de obra, o proprietário requeria "Autorização de Utilização"—ato permissivo que permitia ocupação legal do imóvel. Era um procedimento adicional após conclusão física.
Depois, a "Autorização de Utilização" foi eliminada. Para operações sujeitas a controlo prévio (licença ou comunicação prévia), basta apresentar comprovativo de conformidade técnica:
Certificados de especialidades (água, eletricidade, gás)
Relatório de SCIE (se aplicável)
Certificado Energético
Pronto—propriedade é legalmente utilizável.
Porque importa: Elimina 1-2 meses de procedimento administrativo adicional. A propriedade pode ser ocupada assim que as obras terminam e a documentação é entregue—sem esperar por novo parecer municipal.
Impacto prático: Aceleração de 1-2 meses em fase final de obra.
Mudança 3: Prazos de decisão expandidos e Deferimento Tácito
Esta mudança é revolucionária.
Antes: Prazos de decisão de ~30-45 dias (variáveis conforme tipo). Contagem confusa. Atrasos indefinidos comuns. Nenhuma aprovação automática se Câmara não decidia.
Depois: Três prazos claros:
Obras até 300 m² de área bruta: 120 dias úteis
Obras 300-2200 m²: 150 dias úteis
Obras acima 2200 m² ou loteamentos: 200 dias corridos
Elemento crítico—Deferimento Tácito: Se Câmara Municipal NÃO decidir dentro deste prazo, o projeto é automaticamente APROVADO. O proprietário não precisa reclamar, protestar ou esperar por reconsideração. Simplesmente avança com execução.
Contagem de prazos (regra importante):
Começa na data em que o requerente submete pedido
Suspende-se APENAS se proprietário demorar >10 dias a responder a pedidos de complementos
Permitida apenas UM ÚNICO pedido de complementos durante procedimento (antes era ilimitado)
Porque importa:
Certeza de cronograma (sabe exatamente quando tem resposta)
Proteção contra atrasos indefinidos (se Câmara "dorme", aprovação é automática)
Redução de tempo perdido em burocracia
Impacto prático: Projetos que antes ficavam suspensos indefinidamente ("parados na Câmara") agora têm caminho claro para aprovação. Investidores podem planificar com confiança.
Mudança 4: Informação Prévia—Validade estendida
O que mudou: Informação Prévia favorável (parecer de viabilidade) tinha validade de 1 ano. Agora tem 2 anos, sem necessidade de solicitar prorrogação.
Além disso, é possível pedir uma prorrogação adicional de +1 ano se pressupostos se mantiverem.
Porque importa: Mais tempo para preparar projeto completo sem pressão. Certeza regulatória prolongada. Proteção contra alterações legislativas durante esse período.
Impacto prático: Proprietários podem solicitar IP, esperar 2 anos enquanto planificam financiamento/projeto, e depois avançar sem receio de que legislação tenha mudado.
Mudança 5: Comunicação Prévia para Alteração de Uso
Novo regime: Mudança de uso SEM obra sujeita a controlo prévio (p. ex., comércio para escritório, se não exigir alterações estruturais) agora exige apenas Comunicação Prévia com prazo de 20 dias.
Se Câmara não responde em 20 dias, pedido é automaticamente ACEITE.
Antes: Este tipo de operação exigia licença (45+ dias) ou processo indefinido.
Porque importa: Mudanças de uso simples podem agora ser formalizadas em ~20 dias vs meses anteriormente.
Impacto prático: O proprietário de loja quer converter para escritório sem obras? Comunicação Prévia, 20 dias, aprovação. Muito mais rápido.
Mudança 6: Simplificação de Propriedade Horizontal
Novo regime (específico para conversão Comércio→Habitação):
Alteração de uso não exige aprovação do condomínio
Se houver alteração visual de fachada: exige aprovação de 2/3 dos condóminos (não unanimidade)
Antes: Qualquer alteração em "partes comuns" exigia unanimidade.
Porque importa: Conversão de lojas em habitações em edifícios de propriedade horizontal torna-se viável. Não fica bloqueada por um condómino contrário.
Impacto prático: Transformação loja→habitação agora possível em prédios de condomínio; antes era frequentemente bloqueada.
O que não mudou (e que muitos ignoram)
Apesar das mudanças, certos aspetos mantêm-se:
Conformidade com Plano Diretor Municipal: Projeto ainda deve estar conforme PDM
Infraestruturas: Ainda devem existir e ter capacidade
Acessibilidade (DL 163/2006): Requisitos mantêm-se
Segurança contra Incêndio: Conformidade obrigatória
Documentação técnica: Ainda exigida de forma completa
As mudanças simplificam procedimentos administrativos, não eliminam requisitos técnicos e regulatórios. Proprietários ainda devem cumprir todos os padrões.
Antes e depois
Etapa | Antes | Depois |
Informação Prévia | 30 dias, validade 1 ano | 30 dias, validade 2 anos |
Licença (≤300m²) | ~45 dias | 120 dias úteis + deferimento tácito |
Autorização de Utilização | Obrigatória (1-2 meses) | Eliminada |
Alteração uso simples | 45+ dias | 20 dias comunicação prévia |
Total processual | 6-12 meses | 4-9 meses (conforme complexidade) |
Reformas futuras em horizonte
Governo anunciou (novembro 2025) nova revisão legislativa ainda em discussão:
Redução ainda maior de prazos
Comunicação Prévia como regime principal (não licença)
Autorresponsabilização de promotores (sem controlo prévio municipal tão rigoroso)
Reforço de fiscalização posterior
Estas mudanças ainda estão em processo legislativo (Assembleia da República); entrada em vigor estimada para 2026.
Conselhos práticos para aproveitar as novas regras
Para pequenas obras ou alterações: Comunique com Câmara antes de grandes investimentos. Verifique se Comunicação Prévia é aplicável (regime mais rápido).
Para projetos estratégicos: Solicite Informação Prévia qualificada. Os 2 anos de validade e potencial isenção de controlo valem o investimento.
Monitorize prazos: Com deferimento tácito, contagem de dias é crítica. Saiba quando começam e quando terminam.
Responda rapidamente a solicitações: O único pedido de complementos permitido não é repetível; demora em responder causa suspensão de prazos.
Prepare documentação completa: Apesar de agilização administrativa, documentação técnica continua obrigatória e deve ser de qualidade.
Para refletir
A reforma legislativa de 2024 representa mudança significativa em favor de proprietários e investidores. Deferimento tácito elimina atrasos indefinidos. Validade ampliada de Informação Prévia oferece segurança. Eliminação de Autorização de Utilização simplifica fase final. Contudo, estas mudanças não eliminam a necessidade de compreender requisitos urbanísticos, técnicos e regulatórios. Simplificação administrativa não é dispensa regulatória.
Propriedades que aproveitam bem as novas regras—preparando Informação Prévia, documentação técnica rigorosa, e monitorização ativa de prazos—conseguem reduzir tempo total de vários meses. Para investimentos de vulto, isto traduz-se em economia significativa em custos de contexto. O momento é oportuno para proprietários e investidores compreenderem estas mudanças e ajustarem a estratégia de projeto em conformidade.



