top of page

Quando a câmara pode exigir vistoria antes de um edifício entrar em uso

Foto do escritor: Ana Carolina Santos
Ana Carolina Santos
há 11 horas
4 min de leitura

Concluir a comunicação prévia relativa à utilização de um edifício não significa, por si só, que o imóvel esteja automaticamente pronto a ser habitado ou explorado. Em determinadas situações, a câmara municipal tem o poder de determinar uma vistoria antes de autorizar essa utilização, e é importante conhecer quando isso pode acontecer e como o processo decorre.

A seguir explica-se o enquadramento legal desta vistoria, os motivos que a podem justificar e as fases que a compõem.


Visita da vistoria municipal a uma habitação unifamiliar na fase final da sua construção
Visita da vistoria municipal a uma habitação unifamiliar na fase final da sua construção

O contexto em que a vistoria pode surgir


O artigo 64.º do Regime Jurídico da Urbanização e da Edificação (RJUE), aprovado pelo Decreto-Lei n.º 555/99, de 16 de dezembro, na sua redação atual, aplica-se às situações em que a utilização de um edifício depende de comunicação prévia com prazo — nomeadamente quando não existiu uma operação urbanística prévia sujeita a controlo, ou quando a obra de construção estava isenta desse controlo.

O n.º 1 do artigo 64.º estabelece a regra geral: o edifício ou as suas frações autónomas podem ser utilizados 20 dias após a submissão da comunicação prévia com prazo, salvo na situação prevista no número seguinte.


A vistoria não é uma etapa automática do processo — é uma excepção que a câmara municipal só pode acionar em duas situações concretas e bem delimitadas pela lei.


As duas situações que permitem à câmara exigir vistoria


O n.º 2 do artigo 64.º do RJUE esclarece que, dentro do prazo de 20 dias referido no número anterior, o presidente da câmara municipal pode determinar a realização de vistoria apenas quando se verifique uma destas duas situações:

  • A submissão do termo de responsabilidade não se encontra completa, ou

  • Existem indícios sérios de que o edifício não é idóneo para o fim pretendido.

Fora destas duas hipóteses, a câmara municipal não tem fundamento legal para exigir vistoria, e o edifício pode ser utilizado decorridos os 20 dias, independentemente de qualquer inspeção presencial.


Como se desenrola a vistoria

Quando a câmara municipal decide pela realização de vistoria, o artigo 65.º do RJUE define com precisão os passos que se seguem:

  • A vistoria realiza-se no prazo de 15 dias a contar da decisão do presidente da câmara municipal, decorrendo, sempre que possível, em data a acordar com o requerente, conforme o n.º 1 do artigo 65.º.

  • É efetuada por uma comissão composta, no mínimo, por três técnicos designados pela câmara municipal, dos quais pelo menos dois devem ter habilitação legal para ser autor de projeto correspondente à obra objeto de vistoria, nos termos do n.º 2 do mesmo artigo.

  • O requerente é notificado da data da vistoria e pode fazer-se acompanhar dos autores dos projetos e do técnico responsável pela direção técnica da obra, participando sem direito a voto, conforme o n.º 3 do artigo 65.º.


As duas conclusões possíveis

Realizada a vistoria, o n.º 4 do artigo 65.º do RJUE estabelece que as respetivas conclusões são seguidas de uma de duas decisões:

  • Uma declaração de conformidade do edifício ou da sua fração, ou

  • A imposição de obras de alteração.

Esta segunda hipótese é a que exige maior atenção por parte do proprietário, uma vez que implica trabalho adicional antes de o imóvel poder ser efetivamente utilizado.


O que acontece quando são impostas obras de alteração

Se a vistoria concluir pela necessidade de obras de alteração, o n.º 5 do artigo 65.º do RJUE determina que o edifício ou a sua fração apenas pode ser utilizado depois de verificada a adequada realização dessas obras, mediante nova vistoria a requerer pelo interessado. Esta segunda vistoria deve decorrer no prazo de 10 dias a contar do respetivo requerimento.

Existe, contudo, uma salvaguarda importante para o proprietário: o n.º 6 do mesmo artigo estabelece que, se essa segunda vistoria não se realizar dentro daquele prazo de 10 dias, tal implica a não oposição à utilização do edifício. Ou seja, o incumprimento do prazo por parte da câmara municipal não pode prejudicar indefinidamente quem já corrigiu as desconformidades identificadas.



O que este regime significa na prática


Para quem está a preparar a entrada em uso de um edifício, este enquadramento legal tem implicações concretas:

  • A qualidade e completude do termo de responsabilidade submetido é determinante para evitar que a câmara municipal invoque a primeira das duas situações previstas no n.º 2 do artigo 64.º.

  • A idoneidade do edifício para o fim pretendido deve ser avaliada com cuidado antes da submissão da comunicação prévia, sobretudo em casos de utilizações mistas ou de mudança de uso.

  • Caso a vistoria seja determinada, vale a pena acompanhar-se dos autores dos projetos e do diretor técnico da obra, uma vez que a lei prevê expressamente essa possibilidade.

  • Se forem impostas obras de alteração, importa requerer a nova vistoria com prontidão, sabendo que a lei impõe à câmara municipal um prazo de 10 dias para a realizar.



Para refletir


Compreender os limites exatos do poder da câmara municipal para exigir vistoria antes da utilização de um edifício permite planear com mais segurança o momento em que o imóvel pode entrar efetivamente em funcionamento. A lei não deixa esta decisão ao critério discricionário e ilimitado da autarquia — fixa condições precisas e prazos que protegem simultaneamente o interesse público e os direitos do proprietário.

Conhecer estes prazos e condições, e agir em conformidade com eles desde o início do processo, evita atrasos que podem ter um impacto significativo no calendário de qualquer projeto.


Nota: Este conteúdo foi elaborado com base na legislação portuguesa em vigor em setembro de 2026. Dada a evolução constante do quadro normativo e as especificidades de cada município, recomenda-se sempre a consulta junto da Câmara Municipal competente e o acompanhamento por técnicos habilitados.


bottom of page